Terminando com o ultimo post sobre a história das flores, acompanharemos hoje a evolução do ato de presentar com flores, o que mais marcou e marca a nossa sociedade, a Europa Antiga, o Ocidente, de onde derivam grande parte dos nossos costumes…

O conceito de arranjos florais não chegou à Europa até por volta de 1000 DC. Antes desta data, os países europeus estavam envolvidos na Idade Média e as pessoas tinham pouco tempo e espaço para prazeres em suas próprias vidas. Com a saída deste período, as plantas e flores começaram a fazer parte de suas vidas de maneira diferente, sendo usadas também para a decoração. Este fato foi especialmente importante para as igrejas e mosteiros, onde as flores e plantas foram utilizadas como alimentos, bem como para decoração. Quando os cruzados voltaram do Oriente Médio, trouxeram novas e interessantes variedades de flores e plantas, e como resultado, os países europeus começaram a cultivar e experimentar plantas que antes eram desconhecidos por eles.

Séculos 15 e 16

As decorações florais tornaram-se mais elaboradas e objeto de estudos durante o período renascentista dos séculos 15 e 16. O renascimento do interesse nas Antiguidades influenciou o uso generalizado de guirlandas e coroas de flores na Europa renascentista, especialmente na Itália. Eram populares nos desfiles e festas, na decoração de casas e igrejas, e foi comumente descrita na arte da época. Entre os exemplos mais notáveis estão a Grinalda de terracota e o altar do Santuario della Verna (Santuário do Monte Alverne) feita em placas de cerâmica decorativa e relevos feitos pela família de Andrea della Robbia no final do século 15, e grinaldas de flores, frutas e legumes nas pinturas de mestres italianos do norte tais como no quadro “Trivulzio Madonna” de Andrea Mantegna ou o quadro “Maria e a criança “, de Carlo Crivelli onde as flores e materiais vegetais cortados geralmente eram dispostos em ambos os lados e os ramos eram distribuídos de maneira a dar uma perspectiva de altos e baixos, apertados em cachos. Havia também composições piramidais em vasos de pedestal, como os que no fundo do quadro “Virgem com o Menino e São João” (Galeria Borghese, Roma) pelo artista florentino Sandro Botticelli. Arranjos de frutas e legumes em bandejas ou cestas também eram populares.

Século 17

A disposição e composição dos arranjos de flores com diversidade de materiais vegetais tornaram-se verdadeiramente uma arte e um importante dispositivo decorativo no século 17. Durante este período de crescimento da exploração industrial colonização e do comércio, novas instalações foram introduzidas na Europa, onde se desenvolvia um ávido interesse pela horticultura e cultivo de flores. As pinturas com “natureza-morta” (exemplo: Bouquet) do final do século 16, 17, e início do século 18 revelam uma grande variedade de plantas que já existiam nos jardins da Europa. Começando com Jan Brueghel (chamado de “Velvet Brueghel”; 1568-1625), criou-se uma tradição na pintura de flores desenvolvido nos Flandres e na Holanda, que culminou com as obras de Jan van Huysum (1682-1749) – Vaso com bouquet de Flores. Centenas de obras sobre “natureza-morta” dos pintores deste período é matéria-prima valiosa para estudantes de história da decoração floral, jardins e paisagismo. Devem, no entanto, ser considerado como composições idealizadas e não como traduções literais de condições reais de decoração da época. Quadros de artistas do início do século 17, especialmente os de Jan Brueghel, parecem mais interessados em exibir o conteúdo do próprio jardim. Outras representações do século 17 com bouquets mostram arranjos dispostos de maneira profusa que refletem a sensualidade e exuberância do estilo barroco. Elementos curvilíneos, tais como curvas sinuosas em “S” são outros dispositivos de projetos Barrocos utilizado para criar composições dramáticas e com grande eloqüência. Vemos que os ensaio e obras do período Barroco são estudos no domínio, contraste, ritmo e efeito escultural. No estilo, é desenhado o contorno dos bouquets usando manobra de “girar” o centro das flores, a inversão das folhas, e as curvas das hastes das flores de maneira graciosa.

O estilo francês do período de Luís XIV (1643-1715) pode ser bem exemplificado no quadro Bouquet de Fleurs (Musée des Beaux-Arts, Marseille) de Jean-Baptiste Monnoyer. Em seu portfólio está o famoso “Le Livre de toutes sortes de fleurs d’après nature” (Livro de Todos os Tipos de Flores da Natureza) retratando com precisão as flores do ponto de vista da horticultura e, ao mesmo tempo, mostrando os protótipos de gravuras na exposição. Os arranjos florais são mais livres e mais arejados do que os dos Países Baixos e ainda sugerem a opulência barroca. De Florum Cultura (Flora Olericultura di Fiori [“Flora: O cultivo de flores”]), é um famoso livro sobre jardins ilustrados com gravuras publicado em Roma, em 1633 pelo horticultor P. Giovanni Battista Ferrari. Ilustra os estilos de arranjos florais preferido pelos italianos e também descreve técnicas de montagens de arranjos de flores, dispositivos, e acompanhamentos florais. Entre os dispositivos engenhosos ilustrados existe um vaso com furos na sua parte superior removível, fato que facilita ao montar o arranjo de flores bem como colocar ou mudar a água do vaso.

Século 18

O gosto Francês e Inglês dominou o estilo dos arranjos florais no início do século 18, tendo a vida cultural e social centrada na intimidade dos quartos das casas da cidade de Paris e não nos corredores do vasto palácio de Louis XIV em Versailles.

A apresentação dos bouquet de flores passa a ser tratada com tons delicados e visual mais leve, sendo parte disto podendo ser atribuída ao gosto  feminino, tendo influenciado decisivamente o estilo Rococó. Um adereço charmoso e com apelo pessoal, o buquê ao estilo rococó e suas variações ainda é popular no século 20.

Para os Ingleses, os buquês de flores com tendência de ao estilo do período georgiano era muito mais do  que um simples apelo ao Rococó. Muitos livros foram escritos com a finalidade de catalogar a grande variedade de espécies do mundo vegetal, disponíveis na Inglaterra do século 18, dando informações sobre como cuidar e quando e onde usar. Um dos trabalhos mais conhecidos são os dois volumes de “The Gardeners Dictionary” escrito pelo botânico inglês Philip Miller. Neles, menciona o uso de arranjos e buquês de flores secas como decoração na lareira e chaminé das casas Inglesas. Durante os meses de verão, quando a lareira não estava em uso, era costume ter estes arranjos de flores, ramos e composições florais como decoração destes ambientes. As melhores ilustrações dos arranjos florais Ingleses ao estilo georgiano são os quadros concebidos pelo artista flamengo Peter Casteels para um catálogo chamado “The Twelve Months of Flowers” (1730). Este conjunto notável de gravuras coloridas de naturezas-mortas representando em Flores os doze meses do ano foi o resultado da colaboração de três figuras de destaque em seus respectivos campos na Inglaterra na primeira metade do século XVIII: Este foi o primeiro catálogo comercial de horticultura do seu tempo e, como tal, representa um ponto de definição na história da ilustração botânica, da literatura e horticultura na Grã-Bretanha. Em cada gravura, as flores de cada ramo são numeradas com a respectiva correspondência em uma lista na parte inferior da ilustração. Nas gravuras de Jacob van Huysum a exibição das flores é feita de forma mais natural, sendo que ambas as séries são de valor inestimável como fonte e material para as flores de jardins.

O período neoclássico do final do século 18 e início do século 19 trouxe um renascimento no uso das grinaldas e coroas de flores no estilo da antiguidade greco-romana, e os buquês de flores foram então mais utilizados em vasos de estilo clássico.

Os Arranjos de Flores na Era Vitoriana

Durante séculos muitas culturas têm usado flores e plantas como símbolos para o amor, a magia, bem como um meio de comunicação e expressão. Os chineses, gregos, romanos, persas e japoneses, todas as culturas utilizaram flores e plantas como símbolos muito antes da era vitoriana começar . Neste período ocorrem mudanças significativas quanto ao uso dos buquês de flores e arranjos florias no ocidente, dando início ao uso dos termos como Floriografia, vulgarmente conhecido como a “Linguagem das Flores” e também sobre o “Significado das Flores” dando início a criação de farta literatura sobre o assunto.

Era Vitoriana (1837 – 1901)

A era Vitoriana foi um período de prosperidade para o povo britânico, sendo o reinado um  longo período de prosperidade. Com os lucros obtidos a partir do Império Britânico no exterior, a expansão de atividades e desenvolvimento industrial permitiu que a classe média educada tivesse mais tempo livre para dedicar a outras atividades, e por conseqüência, dar maior atenção ao lar, aos jardins e as flores, chegando a torná-los uma extensão das obras de arte. As decorações baseadas em motivos florais, frutas e plantas tomaram conta das estampas e podiam ser encontradas em todos os lugares, em papelarias, detalhes de adorno, em papeis de parede, tecidos, na pintura das casas, e simbolismo da época. A segunda metade da era vitoriana praticamente coincidiu com a primeira parte da era Belle Époque da Europa continental e a Idade Dourada dos Estados Unidos.

Atribuir um determinado significado para cada flor p parece ser algo natural, pois já era conhecido pelos gregos antigos, mas para chegar até a Europa medieval precisou passar pelo tempo das Cruzadas, sendo utilizados durante o período do Renascimento, bem como no início período Barroco. O estilo de horticultura praticado entre 1650 e 1700 é um bom exemplo. Mas foi somente na primeira metade do século XIX que se tornou uma mania, inspirada nas cartas de Lady Mary Wortley Montagu publicadas por Louise Cortambert.

Lady Mary Wortley Montagu foi escritora, e acompanhando seu o marido em viaje onde ocupou o posto de embaixador na Turquia (1716 a 1718) teve a oportunidade de conviver e descrever o cotidiano das mulheres dos haréns e também da vida mais íntima das famílias dos turcos, dando um enfoque totalmente diferente ao que era conhecido. Em algumas cartas Lady Mary escreve que estava entusiasmada para aprender mais sobre o que ela estaria chamando de “A linguagem das Flores“. Relata o que seria uma linguagem que era utilizada entre os amantes para transmitir recados e mensagens usando apenas flores, frutas ou qualquer objeto que pudesse “transferir” informação entre duas pessoas. Esta forma de comunicação era usada corriqueiramente entre as mulheres turcas. Esta linguagem mnemônica é conhecida como “selam” (ou Salaam) uma forma de saudação em Turco.

Os primeiros registros literários da frase “>a linguagem das flores&q” pode ser encontrado nas linhas do poema religioso “Jubilate Agno” de Christopher Smart, escrito durante o período 1759 –  1763.

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